Uma coisa que a Lúcia sempre
teve foi aquela voz absolutamente encantadora. Doce, suave, querida. Isso já
dava pra ver desde que ela começou a carreira, lá em idos de 88, e isso também
no primeiro disco da moça, Ficou no Ar, de 96.
O longo caminho seria, desde então, achar sua própria cara, sua própria chave no
meio de uma vasta e nacional geração de novas cantoras, umas mais pops, outras
mais MPB, muitas delas com referenciais perigosamente próximos de pioneiras como
Marina Lima e Rita Lee. Mas aí era livrar fantasmas, achar o caminho do meio.
Muitas não conseguiram.
Ms taí o segundo disco da Lúcia provando o contrário, espraiando por toda(s)
a(s) cidade(s) que a guria achou seu tom. E o achou, suave, pop, doce, novamente
amparada pela produção experta e esperta do tecladista/programador Cau Netto, um
dos maiores craques nacionais no gênero, infelizmente ainda pouco conhecido fora
dos pampas.
No repertório, algumas boas sacadas, como regravar o Funk da Captura, hit
porto-alegrense da precursora banda funky Dedé & Os Ajudantes. Ou então a bela A
Seta e o Alvo, do colega de geração de Lúcia (não exatamente etária, mas
estética) Paulinho Moska.
Pra completar, duas pop songs do mineiro Rodolfo Mendes e um punhado de
composições da própria Lúcia. Canções de perda, mas tão simples e singelas, que
roçam apenas de leve num desespero de quem sabe que chorar baixinho é mais
tocante (em vários sentidos) que gritos, choros e ranger de dentes.
E tudo isso com músicos pop da pesada, como o baixista Mário Carvalho, o
guitarrista Ciro Moreau, os vocalistas/guitarristas Juliano Courtuah e Guito
Thomas. Além, é claro, da sempre incendiária guitarra do lendário Zé Flávio - o
mais histórico guitar hero abaixo do Mampituba. Tudo isso soando muitíssimo bem,
e fazendo estrear em grande estilo o lado selo/gravadora da premiadíssima
Radioativa Produtora de Áudio.
Enfim: a guria conseguiu fazer um daqueles discos que a gente bota e esquece.
Fica ali, aquela coisa agradando os ouvidos da gente, sem maiores pretensões do
que justamente isso, essa missão tão nobre e às vezes tão difícil: fazer um
agrado nos ouvidos da gente. EnuffZ´Nuff, como diria algum gringo. Suficiente é
o bastante.
Arthur de Faria
Jornalista e compositor